Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil
“A autêntica ação política está profundamente enraizada na construção do bem comum da sociedade. Para nós, católicos, essa ação é consequência de nosso compromisso de levar o Evangelho ao dia a dia de nossa vida. Cabe-nos trabalhar incessantemente para buscar uma sociedade justa, fraterna e solidária. As frequentes notícias de corrupção, particularmente no mundo político, não podem tirar nossa esperança de alcançar esse fim – ao contrário, obrigam-nos a levar a luz da fé às realidades que formam o tecido social, buscando dar fim a tais fatos.” Assim começa a recente Nota da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, intitulada: “Orientações sobre a participação dos católicos nas eleições”.
Por que essas orientações e porque neste momento? A fundamentação teológica da Nota aparece em seu cabeçalho: Antes de tudo, peço que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças, por todas as pessoas, pelos reis e pelas autoridades em geral, para que possamos levar uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável a Deus, nosso Salvador” (1ª Carta de Paulo a Timóteo 2,1-3). Pouco depois, lê-se a razão de sua preparação e divulgação: “Conscientes de que são necessárias grandes mudanças na vida pública, nós, membros do Conselho Presbiteral da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, tendo como referência a Mensagem da CNBB, intitulada “Eleições municipais de 2012”, de 21 de abril de 2012, sentimo-nos movidos a apresentar aos fiéis e às pessoas de boa vontade alguns critérios que julgamos conveniente serem observados, para que cada um exerça com plena consciência e clareza o dever de votar”.
A Nota, que pode ser lida no “site” da Arquidiocese de Salvador (www.arquidiocesesalvador.org.br), aborda quatro questões: O valor do voto, Os partidos políticos, Os candidatos e O uso de espaços institucionais da Igreja.
No primeiro ponto, é lembrado que “O voto é uma forma especial de participar diretamente das escolhas políticas. Por meio dele, cada pessoa dá sua própria contribuição à construção do bem comum; portanto, de modo algum é lícito vendê-lo ou trocá-lo por favores pessoais”. Seguem, então, três recomendações: que haja uma reflexão individual e em grupos “sobre os critérios de escolha dos que podem receber seu voto”; que sejam avaliadas “com cuidado, as campanhas dos candidatos, a quantidade de dinheiro gasto e as promessas feitas” e que, uma vez eleitos, os eleitos sejam acompanhados, uma vez que a participação política “não pode se resumir ao voto nas eleições”.
A seguir, a Nota lembra que também devem ser analisados os partidos políticos, para saber se aquilo que defendem “é coerente com os valores que a comunidade política deve tutelar em busca do verdadeiro bem comum”.
O terceiro ponto começa com uma tradicional observação: “Nunca é demais ressaltar que a Igreja Católica, por força da sua missão universal, não tem partidos ou candidatos próprios; incentiva, sim, que o voto seja dado a candidatos que, por sua vida pública, competência e trajetória política gozam das condições requeridas para o exercício das funções que pleiteiam”.
No último ponto, defendendo “o direito e o dever do engajamento político dos fiéis leigos”, a Nota apresenta critérios para o uso de espaços da Igreja – por exemplo: “Os espaços de igrejas e organizações religiosas não devem ser cedidos para iniciativas de campanhas partidárias”.
As Orientações da Arquidiocese de Salvador terminam com uma observação e uma orientação. A observação: “O período das eleições, momento importante na vida da sociedade, deve ser marcado por um autêntico espírito democrático”; a orientação foi tirada da Carta aos Hebreus: “Deus vos torne aptos para todo bem, a fim de fazerdes sua vontade. Que ele realize em nós o que lhe é agradável, por Jesus Cristo, ao qual seja dada a glória pelos séculos do séculos. Amém!” (Hb 13,20-21).
Por último, o que poderia estar no início da Nota: quanto melhores forem os nossos políticos, melhor será a nossa sociedade. A escolha deles, não podemos nos esquecer, depende de nós.
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